Múltiplas Deficiências, Altas Habilidades e Superdotação
A deficiência múltipla ocorre quando há duas ou mais deficiências simultaneamente – sejam deficiências intelectuais, físicas ou ambas. Não existem pesquisas comprovando quais são as mais recorrentes. As causas podem ser diversas, tais como: disfunções pré-natais, má-formação congênita e infecções virais como rubéola ou doenças sexualmente transmissíveis, as quais também podem causar deficiência múltipla em indivíduos adultos, se não forem adequadamente curadas.
A maneira como cada tipo de deficiência afetará a aprendizagem de tarefas simples e o desenvolvimento da capacidade de comunicação do indivíduo afetado, varia de acordo com o grau de severidade das deficiências, bem como aos estímulos que essa pessoa receberá ao longo de sua vida.
O processo de orientação dos docentes deve ser feito de maneira particularizada, dependendo dos tipos e do grau de comprometimento dos alunos. Independente da somatória de deficiências, é necessário levar em conta que há consequências nos vários aspectos do desenvolvimento da criança, as quais influenciam diretamente o seu modo de conhecer o mundo e desenvolver habilidades adaptativas.
É necessário perceber as competências do aluno com deficiência múltipla, utilizando estimulação sensorial e procurando formas diversas de comunicação, para identificar a maneira mais construtiva de interagir educacionalmente com o aluno.
As pessoas com Altas Habilidades e Superdotação (AH/SD), por sua vez, têm sido objeto de estudo desde a antiguidade, encontrando-se registros sobre esses indivíduos na Grécia, Roma, China, assim como no Egito. Apesar de na antiguidade os indivíduos que se destacavam terem sido valorizados, ainda há nos dias atuais resistências por parte da escola em reconhecê-los.
Atualmente, quando uma pessoa vai se referir a alunos com necessidades educacionais especiais, costuma automaticamente pensar em estudantes portadores de deficiência ou alguma condição debilitante, esquecendo, portanto, a abrangência do termo necessidade educacional especial, que é uma ação realizada que não ocorre convencionalmente no ambiente escolar visando apenas atender as necessidades de um determinado estudante ou grupo.
Este tem sido um fato comum no contexto da Educação Especial para todos, mesmo procurando-se atenuar tais efeitos com os movimentos após a Declaração de Salamanca em 1994 e os dispositivos legais dela resultantes, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (BRASIL, 2001) e também a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), entre outros.
Mesmo o Brasil tendo participado como signatário de Salamanca, ainda se encontra lentidão nas iniciativas e ações para o reconhecimento dos alunos com altas habilidades/superdotação nas escolas brasileiras.
O documento mais importante que ampara o sistema educacional brasileiro é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBN 9394/96, e apresenta em seu Capítulo V a garantia do atendimento aos estudantes públicoalvo da educação especial. Sobre a formação dos profissionais, o art. 59, inciso III, aponta que, para o atendimento especializado a esses estudantes, os docentes deverão apresentar especialização adequada e, para o ensino regular, os docentes precisam ter capacitação para a inclusão de todos.
Mesmo com a atenção à formação continuada, seja ela na especialização ou na capacitação dos docentes, ainda podem ser encontrados diversos pontos para reflexão a respeito do modo mais apropriado destas formações. Os dados analisados mostram que existem ações formativas direcionadas para a educação especial para todos, principalmente para o atendimento às pessoas com deficiências e transtornos, mas bem pouco para altas habilidades/superdotação, não obstante a legislação e as políticas direcionadas para o tema preverem investimento também em cursos para atender a este tema.
O termo necessidades educacionais especiais, engloba as deficiências físicas e psíquicas, até porque, muitas vezes é essencial atender as necessidades do estudante deficiente para que consiga exercer seu papel como aluno, pela acessibilidade através de rampas para cadeirantes, uso de Libras para alunos surdos, equipamento e metodologia especializados para cegos, por exemplo. Mas devemos nos lembrar também, das outras necessidades especiais que podem ocorrer durante o processo de aprendizagem, como os estudantes superdotados.
É preciso considerar que a escola pode contribuir tanto para o sucesso quanto para o fracasso dos alunos com AH/SD. O fracasso, em muitos casos, é por carência de conhecimento sobre o tema, e o sucesso se dá quando educadores apresentam um mínimo de conhecimento sobre altas habilidades/superdotação, o que pode determinar ações que estimulam a capacidade e criatividade dos alunos superdotados.
A AH/SD, se refere aos estudantes que possuem uma facilidade acima da média em certas matérias, podendo se dar pelas mais variadas formas no individuo, e podendo estar presente em qualquer espectro de atividades, seja na música, dança, matemática, esportes, literatura, entre outros.
A origem da superdotação e a facilidade do aprendizado de certas matérias por pessoas especificas, ainda não foram completamente compreendidas pela ciência, mas estima-se que ocorram devido a um conjunto de elementos, principalmente biológicos e sociais. É necessário que a escola garanta para o aluno com AH/SD o direito a uma educação especializada, dependendo de suas necessidades, pois, o fato de o aluno possuir uma facilidade em relação à média pode acarretar em um retardo do seu potencial de aprendizagem, visto que o estudante se vê forçado a acompanhar o resto da sala, podendo desenvolver desinteresse pelos estudos.
Também devemos considerar que o desenvolvimento intelectual pode ser tanto uma benção quanto uma maldição. É comum estudantes superdotados se sentirem distantes em relação às outras crianças, não sabendo como interagir com os seus semelhantes. Também a presença de mecanismos psicofísicos que auxiliam em tarefas intelectuais, tais como a “memória fotográfica” que pode vir a ser extremamente útil na vida acadêmica do aluno, pode também o assombrar, pois, o fato de possuir uma memória que praticamente não esquece das coisas, não o permite esquecer das memórias desagradáveis que não quer recordar.
Curiosamente, é possível se encontrar pessoas geniais que apresentam transtornos ou algum aspecto particular psicológico, e pessoas geniais com as dinâmicas psicológicas similares à maioria e boa habilidades sociais. Assim, o professor deve cumprir com o dever de educador, de fornecer um ambiente pedagógico que permita aos estudantes desenvolverem suas habilidades no potencial máximo, cuidando das dinâmicas sociais relacionadas com o desenvolvimento intelectual e humano.

Saber sobre alguns fatores e etiologias da deficiência múltipla é importante para que se possam expandir as reflexões no campo educacional e, até mesmo, em outras áreas do conhecimento, como é o caso da saúde pública. Um indivíduo que apresente este tipo de situação, pode ter obtido o quadro através de fatores que vão desde antes de seu nascimento, passando por situações ocorridas durante a gestação, durante o parto ou até mesmo por eventos ocorridos posteriormente. A deficiência múltipla também pode ser
resultado de acidentes ou doenças. Portanto, a deficiência múltipla não acontece somente devido a condições relacionadas à gestação ou ao momento do nascimento da criança.
A respeito dos casos de deficiência múltipla que se enquadram dentro dos fatores pré-natais, pesquisadores apontam erros congênitos do metabolismo como uma das possíveis causas que levam a danos no desenvolvimento fetal, resultando em deficiências sérias e em outros casos de complicações.
O uso de medicamentos pela gestante, durante a gestação, também pode ser causador destes tipos de situações, prejudicando o desenvolvimento fetal normal. Dentre as substâncias que podem afetar o desenvolvimento do embrião destacam-se a talidomida, que normalmente é usada como sedativo. Esta substância é expressamente contra indicada para o uso de gestantes, por conta dos efeitos que pode causar no embrião.
Em se tratando do parto, as complicações decorrentes da anoxia, que é a falta prolongada de oxigênio disponível para o bebê, costumam levar à destruição de células cerebrais e o dano causado é, na maior parte dos casos, irreversível, como é o caso da paralisia cerebral, que pode estar relacionada a diferentes casos de deficiência, assim como aos casos de deficiência múltipla.
A paralisia cerebral é um distúrbio permanente, embora variável, do movimento e da postura do indivíduo, causada por defeito ou lesão não progressiva do cérebro no início da vida. A lesão pode ocorrer no período pré, peri ou pós natal, e não somente durante o parto. A característica da paralisia cerebral é a alteração dos movimentos controlados ou posturais da pessoa, surgindo cedo, sendo secundária a uma lesão, dano ou disfunção do sistema nervoso central.
Sobre o período pós-natal, doenças infecciosas podem causar nas células do cérebro um processo inflamatório, o que leva a uma consequente destruição neurológica que costuma causar danos consideráveis, provocando também a ocorrência de múltiplas deficiências no mesmo indivíduo. Ocorre ainda a possibilidade da influência de fatores ambientais, como tumores, ou outros tipos de causas como intoxicações, traumas e acidentes que também podem ser apontados como causadores de quadros de deficiência múltipla.
A escolarização de alunos com deficiência múltipla é bastante recente no Brasil. Fato que provavelmente está associado à tardia institucionalização da Educação Especial, que ocorreu apenas durante o regime militar, no início dos anos de 1970. Contudo, é consenso entre os estudiosos da área que a educação dos alunos com deficiência múltipla ainda apresenta lacunas, assim como são poucos os estudos que se concentram na análise e avaliação dos processos de ensino e aprendizagem desses alunos.
As crianças com múltiplas deficiências historicamente foram e, em muitos casos, continuam sendo ensinadas separadamente em instituições especiais públicas ou filantrópicas privadas. No entanto, a maior parte das crianças com deficiência múltipla, até os anos de 1990, ficava sem qualquer acesso aos sistemas de ensino. Esta omissão do governo brasileiro, em proporcionar os direitos educacionais e sociais para estes indivíduos, também ocorreu com outras categorias de deficiências.
Os serviços especializados, oferecidos em instituições filantrópicas privadas, foram implementados por familiares de alunos com deficiência, para substituir a omissão causada pelo poder público. Neste contexto, uma das instituições pioneiras foi a FADEM, formada para o atendimento de crianças com múltiplas deficiências, o que ocorreu somente no ano de 1983.
Esta instituição foi fundada pela fisioterapeuta Bárbara Fischinger, que lutava pela escolarização de crianças e adolescentes com múltiplas deficiências. Estas ações puderam contribuir para o desenvolvimento do atendimento às pessoas com deficiência. No entanto, eram iniciativas isoladas e grande parcela da população não recebeu qualquer atendimento, pois não havia uma política pública educacional dirigida para esses indivíduos.
Somente em 1980, o Ministério da Educação incluiu a deficiência múltipla em documentos técnicos, oferecendo possibilidades de captação de recursos para o seu atendimento, como já ocorria com as demais categorias de necessidades educacionais especiais. Contudo, este mesmo tratamento, previsto nos documentos, em muitos casos não se concretiza de fato.
A questão principal não era realmente o incentivo ou políticas educacionais, mas a credibilidade. Acreditava-se que essas crianças não eram capazes de processar as informações para o conhecimento, devido as suas múltiplas e severas limitações.
Tal realidade vem sofrendo mudanças desde os anos 1990, com os avanços legais de garantia dos direitos sociais e educacionais dos indivíduos que integram o público alvo da Educação Especial no país, que são: as pessoas com deficiência, com transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. A instauração da educação inclusiva, formulada durante a Declaração de Salamanca (1994), em conjunto com outras diretrizes de organismos internacionais, vem sendo utilizada para orientar os governos na implementação de políticas educacionais para esta parcela da população.
É importante que os profissionais da educação tenham em mente que não basta entender a inclusão como uma proposta na qual se tem apenas que oferecer acesso ao aluno com deficiência e outras condições atípicas na escola, mas que é necessário garantir a esses alunos o direito de terem acesso às atividades educacionais e, consequentemente, se desenvolverem de acordo com as propostas de aprendizagem. Para isto é importante que os professores levem em consideração as especificidades de cada aluno.
Mudanças e investimentos mais relevantes vêm acontecendo desde o ano de 2008 através da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. A inclusão deve acontecer em todos os níveis de ensino, da educação infantil até o ensino superior, assim como, mudanças sobre o suporte educacional especializado. Este suporte deve ocorrer prioritariamente em salas de recursos multifuncionais, através das propostas do atendimento educacional especializado (AEE), Sendo então um complemento e suplemento ao ensino comum e não apenas um espaço substitutivo da escolarização, conforme acontecia e ainda acontece em alguns casos em escolas especiais e nas classes especiais.
Na nova Política de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva, não foram citados especificamente os casos de múltiplas deficiências, mas foram citadas as dificuldades motoras, intelectuais, auditivas, visuais, altas habilidades e distúrbios globais do desenvolvimento, envolvendo autismo e distúrbios de comportamento.
As dificuldades múltiplas não foram abordadas especificamente, o que pode ser interpretado como estando elas incluídas na categoria de Dificuldades Globais do Desenvolvimento, já que em muitos casos as Deficiências Múltiplas se apresentam com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, dificuldades sensoriais de visão, audição e distúrbios de comportamento.
O fato de indivíduos com deficiência múltipla não serem contemplados diretamente, compromete a conscientização sobre o assunto, já que os casos de Deficiência Múltipla se apresentam como realidades complexas, que precisam de compreensão clara de suas características, para que possam ser oferecidos os aportes necessários.
Somando-se a todas as questões levantadas, há também as dificuldades relacionadas à concreta escolarização de alunos que apresentam Deficiência Múltipla. Mesmo já havendo uma concordância sobre os benefícios que as interações sociais podem proporcionar para estes alunos em contextos inclusivos, ainda restam dúvidas quanto as reais possibilidades de a inserção ocorrer de fato nas classes comuns do ensino regular, o que pode estar acontecendo devido à falta de condições necessárias das escolas públicas, para que haja a efetiva inclusão de alunos que apresentem comprometimentos mais rigorosos.
Alguns pesquisadores vêm alertando sobre as precárias condições em que esses estudantes têm sido incluídos nas escolas comuns, sem que tenham sido efetivamente atendidos nas suas especificidades.

São inúmeras as possibilidades de intervenção para otimizar a funcionalidade dos indivíduos que apresentam este tipo de condição. Cada caso apresenta as suas singularidades, pois é possível que uma pessoa que apresente apenas um tipo de deficiência, possa estar mais comprometida que uma outra que se apresenta em um quadro de múltipla deficiência.
O impacto da deficiência múltipla apresenta bastante variação, o que dependerá de vários fatores, como os tipos e quantidades de deficiências primárias associadas. Portanto, serão responsáveis pelas variações das condições de cada indivíduo a amplitude ou abrangência dos aspectos comprometidos, as fases do desenvolvimento em que houveram as aquisições das deficiências, assim como os fatores ambientais, as interferências familiares e a intensidade das intervenções pedagógicas e de saúde, entre outros fatores.
Sendo assim, em quadros mais severos de deficiência é muito importante que o educador formule propostas individualizadas de desenvolvimento para cada aluno, a partir do trabalho em conjunto com equipes formadas por profissionais da educação, como coordenadores pedagógicos e da saúde, e também psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, entre outros.
Lamentavelmente, no Brasil ainda não há uma estrutura pública adequada para atender a situações destes quadros de deficiência. Além do mais, historicamente o sistema de saúde brasileiro tem mantido o foco em diagnósticos e reabilitações dos indivíduos com deficiências, e não vem atuando em parceria com a área educacional para que se possa planejar ações que otimizem o desenvolvimento daqueles que demandam intervenções mais sistematizadas, parcerias que envolvam profissionais das duas áreas do conhecimento, como ocorre em outros países, como nos Estados Unidos, Suécia e França, por exemplo.
Em muitas situações, a deficiência múltipla traz consequências limitantes para a fala. Para estes casos, é necessário que se promova intervenções sistematizadas, ordenadas e realizadas com o intuito de proporcionar o desenvolvimento da comunicação nestes indivíduos, fator fundamental para a qualidade de vida de grande parte destas pessoas, que podem ser estimuladas a fazer escolhas, como por exemplo, a respeito dos alimentos que desejam ter em suas refeições.
Os recursos da comunicação alternativa estão sendo fundamentais, considerando que geram, para as pessoas com deficiências múltiplas que não apresentam a fala, a oportunidade de expandir a sua funcionalidade na vida cotidiana por meio da comunicação e interação, bem como adquirir conhecimentos formais aprendidos na escola através de processos de ensino e aprendizagem.
Os recursos da comunicação alternativa colaboram para que os alunos possam interagir com o meio, mesmo ainda que não possam falar, ou apresentem outros empecilhos que o impeçam de se comunicar. Tais recursos fazem parte da área das tecnologias assistivas, uma área com grandes possibilidades de recursos, estratégias e ferramentas que auxiliam na compensação de limitações advindas de deficiências, possibilitando a estes indivíduos autonomia, otimização nas habilidades funcionais e possibilidade de participação e inclusão em contextos sociais.
A escolarização de alunos com múltiplas deficiências se mostra como um complexo desafio, em função de uma realidade de ensino que ainda se apresenta com sérios problemas de infraestrutura, superlotação nas salas de aula, entre várias outras dificuldades. Portanto, com base em teóricos de diferentes áreas do conhecimento e a partir da análise dos documentos no campo educacional do país, se torna evidente que, para que a garantia dos direitos educacionais e sociais desses sujeitos ocorra de fato, ainda existem inúmeros desafios a serem resolvidos.
É fundamental que as diretrizes políticas mostrem clareza nas propostas educativas a serem desenvolvidas para esses estudantes que necessitam, em grande medida, de ações diversificadas, embasadas em diversas áreas do conhecimento, para que possam ter a garantia de um pleno desenvolvimento.
Em todo o mundo, a educação está sendo revisada, não somente nos aspectos quantitativos, mas essencialmente no que diz respeito à questão da qualidade, o que influencia diretamente na formação dos recursos humanos que irão agir na sociedade.
É esperado que o professor, de uma maneira geral, apresente conhecimentos adequados sobre o que pretende ensinar e que domine as habilidades necessárias à organização e à transmissão do conteúdo aos seus alunos. Que reconheça os objetivos educacionais, assim como as relações estabelecidas no âmbito escolar e da escola com a sociedade, de modo a otimizar o exercício de sua função.
É esperado que a escola seja inclusiva. Todavia, os alunos com consideráveis limitações e necessidades de aportes, são aqueles em relação aos quais normalmente os professores, e mesmo as instituições especializadas, apresentam mais dificuldades para corresponderem às suas necessidades.
Ao docente que se dedica aos estudantes com deficiência múltipla, alguns requisitos devem ser acrescidos, como o reconhecimento das particularidades educacionais dos estudantes, suas necessidades educacionais especiais, suas potencialidades e os avanços atualizados na concepção de deficiência. Deve também apresentar domínio sobre as novas maneiras de abordar a educação e a inclusão escolar e social desses alunos. Por isso, é muito importante a preparação adequada dos professores para o atendimento educacional aos alunos com deficiências múltiplas.
A importância do entendimento e a busca por uma definição que forneça uma compreensão do que seja a deficiência múltipla, se confronta com a complexidade que a própria nomenclatura representa e a pouca quantidade de pesquisa na área. Deficiência múltipla é um termo bastante controverso e claramente pouco discutido pela comunidade científica.
A carência de pesquisas científicas nesta área, não é uma exclusividade do Brasil. Esta situação também é fato na Europa. Portanto, o que é possível de ser notado é que apesar da carência de estudos, ou mesmo por conta desta carência, existem muitas interpretações distintas sobre o que seja de fato a deficiência múltipla.
Tal fato pode ser comprovado na literatura internacional, na qual, além de haverem diversas definições sobre o que é deficiência múltipla, também pode ser constatado que não há consenso entre os pesquisadores em definir suas características. Quanto à falta de consenso entre os estudiosos com relação à conceituação de deficiência múltipla, é possível se verificar na literatura que alguns a cogitam como uma deficiência inicial que gerou outras. Outros autores a consideram como uma associação de duas ou mais deficiências, porém, sem que necessariamente uma tenha sido causadora do desenvolvimento da outra.
Esta última definição está em consenso com o que está disponível em diferentes documentos federais, como a Política Nacional de Educação Especial e também no documento de Subsídios para Organização e Funcionamento de Serviços de Educação Especial – área de Deficiência Múltipla. Conforme estes dois documentos, a deficiência múltipla é uma:
“associação, no mesmo indivíduo, de duas ou mais deficiências primárias (mental/visual/auditivo/física), com comprometimentos que acarretam atrasos no desenvolvimento global e na capacidade adaptativa”.
Esta definição mostra que a deficiência múltipla pode implicar na associação de deficiências, que variam de acordo com o número, a causa, o grau e a abrangência destas deficiências em questão. Consequentemente, podem variar os efeitos dos comprometimentos na vida cotidiana dos indivíduos que a apresentam.
No ano de 2004, a deficiência múltipla foi caracterizada também pelo Ministério da Educação, através do documento “Saberes e práticas da inclusão: dificuldades acentuadas de aprendizagem – deficiência múltipla”. Neste documento a deficiência múltipla foi caracterizada como sendo a associação de duas ou mais deficiências, podendo estas serem de ordem sensorial, física, mental, comportamental e /ou emocional. Em 2007, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) também disponibilizou um conceito para deficiência múltipla, seguindo nesta mesma direção.
Em nível internacional, pode ser encontrado o conceito apresentado pelo National Information Center for Children and Youth with Disabilities (NICHCY) que nos Estados Unidos define a deficiência múltipla como sendo a condição em que o indivíduo apresenta deficiência intelectual profunda e que, em muitos casos, apresenta dificuldades adicionais, como perdas sensoriais, na movimentação e problemas de comportamento. Neste caso, é possível perceber que há uma concepção que define deficiência múltipla, que parte especificamente da deficiência intelectual.
Já mais próximo das posições adotadas pelos documentos oficiais no Brasil, há o conceito do Individuals with Disabilities Education Act (IDEA), órgão norte americano que define a deficiência múltipla como: deficiências concomitantes ou simultâneas mostrando a associação entre deficiências físicas, intelectuais ou sensoriais.
Este órgão não classifica a surdo-cegueira como uma deficiência múltipla, deixando-a como uma modalidade de deficiência diferente, considerando que se trata de uma circunstância estritamente sensorial. Esta consideração a respeito da surdo-cegueira também é adotada oficialmente no Brasil.
Os indivíduos com surdo-cegueira são pessoas com severas limitações no funcionamento cognitivo, associadas às limitações nos outros domínios, que são o domínio motor e ou sensorial, ou seja, na visão ou audição. Tais limitações prejudicam o desenvolvimento e a aprendizagem, situação que demandará apoio permanente ao indivíduo.
A definição portuguesa apresenta a deficiência múltipla como uma deficiência que parte da deficiência cognitiva, e que pode estar associada a outros tipos de deficiências, sensoriais ou físicas. Ou seja, esta concepção, está em consonância com a definição da NICHCY. Ambas concordam que a deficiência múltipla está presente somente quando ocorre a deficiência intelectual, estando esta associada ou não a outras deficiências.
No Brasil, é importante mencionar também o documento “Educação Infantil – saberes e práticas da inclusão: dificuldades acentuadas de aprendizagem – deficiência múltipla” (2006). Neste documento, esta deficiência é definida “para caracterizar o conjunto de duas ou mais deficiências associadas, de ordem física, sensorial, mental, emocional ou de comportamento social”. Ainda neste mesmo documento, há uma consideração que chama a atenção para a complexidade deste assunto, pois diz sobre o que necessariamente caracteriza um caso de deficiência múltipla:
“… não é o somatório dessas alterações que caracteriza a múltipla deficiência, mas sim o nível de desenvolvimento, as possibilidades funcionais, de comunicação, interação social e de aprendizagem que determinam as necessidades educacionais dessas pessoas. “
Portanto, a atenção às especificidades e necessidades de cada indivíduo é de extrema importância, não podendo estar restrita somente nos laudos médicos. Avaliar o desenvolvimento, considerando apenas as características que se apresentam normalmente nos casos de determinadas deficiências, não é o suficiente para se conhecer de fato o sujeito e, consequentemente, as suas reais necessidades. O mesmo ocorre em relação às potencialidades que podem apresentar, pois o desempenho e as competências destes alunos são heterogêneos e variam de sujeito para sujeito.
Além das características apresentadas, que variam de acordo com as deficiências que a pessoa apresentar associadas, o grau de comprometimento varia também, dependendo dos aspectos que são influenciados ambientalmente, como através dos estímulos, das oportunidades de desenvolvimento, das relações vivenciadas pela pessoa, entre outros aspectos.
Portanto, a aceitação da família, o apoio adequado, a intervenção direcionada adequadamente para trabalhar nas causas e nos efeitos das deficiências presentes, a oportunidade de participação e integração do indivíduo ao ambiente social e físico, o incentivo constante para a aquisição do máximo de autonomia possível, são fatores fundamentais para o melhor desenvolvimento das pessoas com múltipla deficiência.
Em relação à questão biológica, as experiências vivenciadas pelo aluno podem ter grande influência. Sendo assim, a ação pedagógica é fundamental, pois exerce um papel muito importante. Quando as Intervenções apropriadas são iniciadas cedo resultam em melhores condições para o desenvolvimento da aprendizagem, assim como, da integração familiar e social.
O aluno com deficiência múltipla demanda de atenção especial em todos os níveis do seu desenvolvimento, portanto, em nível motor, sensorial, intelectual, educacional, assim como no nível social. Tanto as intervenções mais específicas quanto a introdução de estratégias para o seu desenvolvimento global, devem ser experimentadas, e os resultados, devem ser compartilhados no meio científico, para que cada vez mais estes alunos, seus cuidadores e professores, possam ser beneficiados através das pesquisas e dos relatos de experiências que obtiveram resultados positivos.
Considerando as especificidades nos processos de aprendizagem de estudantes com deficiências múltiplas, ocorre a necessidade de se ter em mente o impacto das limitações motoras, cognitivas, sensoriais e também de comunicação.
A pessoa que apresenta múltipla deficiência tem dificuldades em transferir aprendizagens e de generalizar os conceitos, em consequência da combinação das limitações sensoriais e motoras. A escolarização, assim como a habilitação e reabilitação destes alunos, acontecem através de uma perspectiva global e interativa, em que se considera os ambientes e as situações de aprendizagem, assim como os interesses e preferências destes estudantes, a avaliação sensorial e de comunicação receptiva e expressiva e as expectativas da família.
Perante os fatos discutidos, faz-se necessário obter clareza de que as crianças com deficiência múltipla demandam necessidades que não devem ser ignoradas, considerando a real intenção de garantir o seu desenvolvimento. Os estudantes que apresentam a deficiência múltipla podem adquirir alterações consideráveis no processo de aprendizagem, desenvolvimento e de adaptação na sociedade. Possuem diversas potencialidades, possibilidades funcionais e necessidades determinadas, que precisam ser consideradas e principalmente compreendidas. Estes estudantes mostram, em alguns casos, interesses inusitados, variados níveis de motivação, maneiras de agir bastante incomuns ao comunicarem e expressarem as suas necessidades, intenções, desejos e sentimentos.
No Brasil, os registros indicam iniciativas para o atendimento à população com altas habilidades/superdotação em pesquisas no ano de 1929, com Ulisses Pernambucano e com a publicação em 1931 por Leoni Kaseff da obra “Educação dos Supernormaes”. No ano de 1945 a cientista russa Helena Antipoff iniciou trabalhos que buscavam o atendimento aos mais capazes no Instituto Pestalozzi, na cidade do Rio de Janeiro. Desde então, Antipoff continuou com seu objetivo e fundou na Fazenda do Rosário, em Ibirité/MG, no ano de 1962, sendo esta a primeira tentativa de formar um grupo de adolescentes talentosos no ambiente rural.
Comprometida com a luta em prol do trabalho educacional a estes indivíduos, Antipoff foi integrante da equipe de especialistas que realizou em 1971 o Primeiro Seminário para Superdotados no país. Obteve êxito na inclusão dos estudantes superdotados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 5.692, artigo 9º).
Desde aquela época, as AH/SD têm sido mantidas como necessidade educacional especial nos documentos pertinentes à Educação Especial, como na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN 9.394, 1996; na Resolução nº 02, 2001 e nas Políticas Nacionais de Educação Especial na Perspectiva de Educação Inclusiva, 2008.
A Política Nacional para a Educação Especial no cenário da Educação Inclusiva apresenta três grupos considerados públicos escolhidos para o atendimento de toda a Educação Especial: a deficiência, os transtornos globais do desenvolvimento e as altas habilidades/superdotação. Este grupo se define como estudantes que apresentam alto potencial em qualquer uma das seguintes áreas, separadas ou combinadas: a intelectual, a acadêmica, a liderança, a psicomotricidade e a artes, assim como demonstram alta criatividade, bastante envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas nas áreas de seu interesse.
É necessário salientar que a terminologia foi alterada de Altas Habilidades (Superdotados) para Altas Habilidades/Superdotação e o quesito psicomotor para psicomotricidade em relação à legislação anterior, de 1994. Legalmente, é possível dizer que os estudantes com altas habilidades/superdotação estão bem amparados. Mas isso, no entanto, não acontece quanto à sua identificação e à serviços de atendimento especializado.
Os mitos ou falsos conceitos cercam o entorno dos indivíduos que se destacam de seus pares e, possivelmente, se apresentam como entraves para ações educacionais em favor do reconhecimento destes alunos. Alguns destes falsos conceitos podem ser os seguintes:
- Um aluno superdotado, é um “adulto partido ao meio”;
- Os superdotados são gênios; são “sabe-tudo”;
- O superdotado é impecável: o mais certinho, disciplinado e obediente;
- Todo superdotado é bem-sucedido na escola e na vida;
- A superdotação é um indicador de: rebeldia, desrespeito, desobediência, atrevimento, ousadia;
- Superdotação: condição para grande produtividade;
- Todo aluno com indício de superdotação “é superdotado”.
São falsos conceitos que contrariam os avanços da ciência. Uma pessoa com indicadores de alta capacidade não é necessariamente bem-sucedida na vida ou mesmo na escola. Estudantes podem apresentar rendimento escolar baixo quando o processo de ensino não está os favorecendo.
Quanto aos indicadores das altas habilidades/superdotação, vários autores apresentam listas. A seguir estão alguns fatores que podem indicar uma pessoa com AH/SD:
- Apresenta aprendizado rápido;
- Apresenta criatividade e originalidade não convencionais;
- Amplos conhecimentos: apresenta conhecimento em áreas não comuns;
- Pensamento incomum para resolver problemas;
- Persistente, independente, efetuando tarefas sem que seja ordenado;
- Persuasivo, articulado e com bastante influência;
- Inquisitivo, apresenta curiosidade sobre o como e o porquê dos fatos;
- Adapta-se a situações diversas e a novos ambientes;
- Habilidades em artes (música, dança, desenho, etc.);
- Apresenta um vocabulário excepcional, verbalmente fluente;
- Aprende facilmente novos idiomas;
- Apresenta interesses para além da idade cronológica;
- Apresenta insights e percepções fora do comum;
Embora exista uma variedade de características, assinaladas por diversos autores, é importante considerar que, classificar os alunos por seu desempenho nas escolas sem disponibilizar aporte educacional, será um trabalho inútil, já que poderá rotular estes alunos ainda mais.

Em diversos contextos históricos e culturais, é possível verificar a presença de alunos com potencial acima da média. Normalmente são pessoas que desempenham atividades relevantes no seu grupo social, e pensam em resultados para o bem geral.
O desenvolvimento social, psicológico e biológico do indivíduo é resultado de sua interação com a sociedade na qual está inserido. A inserção do ser humano num determinado ambiente cultural é parte essencial de sua própria constituição enquanto indivíduo.
É impossível ao ser humano ser privado do contato com um grupo cultural, já que será através deste contato que ele obterá os instrumentos e signos que possibilitarão o desenvolvimento de suas atividades psicológicas, especificamente humanas. Portanto, o potencial das altas habilidades de um indivíduo dependerá, consideravelmente, dos estímulos que receber do meio ambiente em que vive.
O MEC, através das Políticas Nacionais para a Educação Especial destaca que os alunos com altas habilidades/superdotação são aqueles estudantes que apresentam potencial elevado em uma das seguintes áreas, separadas ou combinadas:
- Intelectual;
- Acadêmica;
- Liderança; Psicomotricidade
São definidos, também, como sendo bastante criativos, apresentarem grande envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas afins.
A literatura traz diversos conceitos sobre altas habilidades/superdotação, como por exemplo: sujeitos que apresentam capacidade acadêmica acima da média, se envolvem intensamente com o trabalho ou estudo a ser realizado e elevado potencial criativo. No entanto, tais características, não precisam estar todas necessariamente presentes ao mesmo tempo, ou seja, um superdotado pode apresentar uma ou várias destas características e estas podem variar ao longo do seu desenvolvimento.
Embora a conceituação de capacidade não seja simples, talento em si é facilmente reconhecível no contexto das interações entre as pessoas superdotadas, e delas com o meio, mesmo em dimensão de tempo relativamente curta. A palavra talento é em alguns casos associada ao desempenho superior em artes, como música, escultura, pintura, teatro. Entretanto, o conceito de talento como alta capacidade, engloba todas as áreas de atributos e características admiradas e valorizadas pela cultura e pelo momento histórico em que o indivíduo vive, ou viveu. Talento como alta capacidade é uma abstração embasada nos valores em vigor de cada momento histórico, dentro de um referencial embasado no que a cultura valoriza e aprecia.
Para alguns autores é inconcebível a inteligência humana ser algo possível de ser medido. Há questionamentos sobre a concepção de que a capacidade do indivíduo pode ser medida através de testes. No entanto, os indivíduos superdotados podem apresentar precocidade, em que a criança adquire o domínio de certa área de conhecimento em idade anterior à média. Podem ser muito autênticas, apresentando certa insistência em fazer as coisas do seu jeito. Tendem a aprender mais rápido e o aprendizado é qualitativo e praticamente autônomo, pois geralmente precisam de ajuda mínima de adultos para dominar uma determinada área.
Considerando o fato de que há estudantes que podem apresentar mais de uma necessidade educacional especial (NEE), como os que apresentam altas habilidades/superdotação e deficiência visual, por exemplo, surge a necessidade de se fazer algumas reflexões sobre esta possibilidade.
A literatura que trata da temática é restrita, principalmente, a autores brasileiros. Em relação à dupla demanda de apoio educacional especial, nos últimos anos foi possível notar um diminuto aumento na quantidade de estudos empíricos a respeito do tema.
É incontestável a importância de estudos que contemplem esse grupo de alunos. A raridade de publicações sobre o tema, se apresenta como um dos problemas para que os fundamentos teóricos e as práticas cheguem até as escolas, para assessorar no reconhecimento e serviços especializados às necessidades específicas de cada aluno.
Há certos impedimentos com a identificação dos alunos com DNEE, que podem ser: um conhecimento limitado de pais e profissionais quanto a DNEE, uma falta de iniciativa positiva dos docentes em relação à identificação e inclusão em programas de atendimento, métodos inadequados para a identificação, assim como eventuais restrições de recursos para os programas de provisão pedagógica.

O tema educação especial se encontra presente na formação inicial ou na continuada de docentes, através de especialização, cursos de extensão, cursos avulsos ou mesmo cursos oferecidos pela própria Secretaria de Educação. No entanto, pesquisas indicam que, em torno de cinquenta por cento dos cursos de formação de educadores não há trabalhos envolvendo AH/SD e, quando ocorre, a abordagem é feita de forma superficial.
Perante aos fatos a formação docente não deve se situar apenas na graduação, mas ser desenvolvida durante toda a vida profissional, principalmente para os educadores que irão atuar com alunos que apresentam indícios de altas habilidades/superdotação. É preciso, portanto, conhecimento sobre esta área da educação especial, seja em nível de capacitação ou especialização.
O docente deve ter interesse em estudar e aprender novos conceitos e metodologias. Estar disposto a obter informações e formar conhecimentos que venham melhorar a sua atividade.
Tendo em mente o que determina a Resolução nº 1/2006, referente à formação de docentes do curso de pedagogia, Artigo 4º, inciso X, os educadores são orientados a ter consciência da diversidade, do respeito às diferenças ambientais, étnico raciais, de gêneros, classes sociais, religiões, etc. Esta legislação aponta que o docente precisa se conscientizar de que os estudantes constituem um grupo heterogêneo, e ressalta a necessidade deste profissional estar sempre se atualizando.
Analisar a heterogeneidade presente em uma sala de aula alerta o educador para a necessidade a sua formação continuada nas diversas áreas de conhecimento. É de extrema importância a circulação de informações em todos os centros educacionais, informações estas que orientem o profissional a refletir a respeito de suas práticas.
O profissional deve receber treinamento na área para poder formular situações adequadas que estimulem as altas habilidades do estudante que as apresenta. Um educador que não possa desenvolver estas situações de estímulo, estará limitado a direcionar e limitar o desenvolvimento e o entendimento do aluno em questão. O docente pode não apresentar uma formação específica, mas deve, contudo, obter um estudo mais aprofundado que o ajude a lidar com esta realidade.
Todo a atuação educacional tem como base a ação do educador que atua direto com o estudante e, para o aluno com indícios de altas habilidades/superdotação, não é diferente. Dessa forma, o docente é colocado como o mediador fundamental das ações pedagógicas no contexto escolar de inclusão para todos, em um processo social e histórico, com o objetivo de atingir níveis de excelência no desenvolvimento de todos os estudantes.
O processo de intermediação social, acontece entre o homem e o mundo material e com outros indivíduos na sociedade. Na escola, essa mediação adquire um caráter intencional, quando objetiva o desenvolvimento do estudante. Por meio de uma ação intencional, o docente intermedia a relação entre o estudante e a informação.
Vygotsky ao abordar o assunto sobre o desenvolvimento e o aprendizado, se referiu à zona de desenvolvimento proximal, reconhecendo dois níveis de desenvolvimento: o desenvolvimento real, definido por processos já estabelecidos, e o potencial, caracterizado por processos que estão em formação, passíveis de serem ativados através do auxílio do educador ou de outro aluno.
Desta forma, o professor passa a ser o principal mediador do desenvolvimento das potencialidades do estudante. No ambiente de aprendizado, situações são mediadas por didáticas que auxiliam o intercâmbio entre os alunos e destes com o educador. Tanto o docente como os alunos participam deste processo, construindo as estratégias que mais viabilizem a solução de problemas. Situação que necessariamente implica em aquisições de aprendizagens para ambos, professor e aluno.
É necessário que o educador atue com mais flexibilidade na sua prática, possibilitando que o conteúdo tome rumos diferenciados pela influência dos alunos em sala de aula. O docente precisa entender que um aluno que demande uma flexibilização na prática do professor também poderá ser um motivador em sala de aula, o que o aproximará dos outros estudantes. O profissional precisa estar em constante atitude de pesquisa junto com este estudante, podendo ser o motivador para o desenvolvimento das suas habilidades.
Entre outros aspectos, os professores que trabalham com estes alunos precisam ser tranquilos, sempre ter paciência para as diversidades, serem proativos, encorajadores, estarem dispostos a articular estratégias de ensino, a dinamizar as situações para que o aluno consiga progredir, serem bons observadores, serem criativos, apresentarem um olhar sensível, gostarem de desafios, e se atualizarem constantemente.
Para uma reflexão sobre as características do educador que se propõe a trabalhar com estudantes que apresentam indícios de AH/SD, é essencial o docente estar preparado para encarar desafios, presenciar situações difíceis e ser um facilitador para estes estudantes.
Para o professor poder atuar junto a alunos que apresentam indícios de altas habilidades/superdotação, ele não precisa apresentar AH/SD, porém, necessita dispor de determinada postura e atitude quanto ao processo a ser trabalhado com o aluno, o que deverá proporcionar seu melhor desenvolvimento. Portanto, é esperado que o educador tenha interesse em conhecer e se atualizar constantemente, estando disposto a adquirir informações e formando novos conhecimentos que venham melhorar o seu trabalho em sala de aula.
Perante os desafios, é possível reconhecer que não há ensino sem pesquisa e não pode haver pesquisa sem ensino. Este circuito leva o educador a estar, enquanto ensina, numa busca contínua, procurando constantemente respostas para os desafios de se ensinar para uma realidade diversa. O ensinar é uma constante busca, uma constante indagação. A pesquisa leva o sujeito a constatar e, constatando, pode melhor intervir. A pesquisa permite o conhecimento da novidade. A reflexão sobre a prática de ensino, sobre a formação e, sobretudo, sobre professores pesquisadores é essencial, já que é através da pesquisa, um processo inerente ao educador, que será possível atingir níveis de excelência na tarefa de ensinar e aprender.
A legislação estabelece, para os professores que trabalham com alunos com necessidades educacionais especiais, apenas a formação para a atuação na área da educação básica. Novas adequações legais foram se mostrando necessárias para a garantia do direito ao atendimento a esses alunos.
A LDB nº 9.394/96, no art. 58, em seu caput, apresenta a educação especial como modalidade de educação escolar, tanto para alunos com deficiência, como alunos com transtornos globais do desenvolvimento assim como com altas habilidades/superdotação.
Ao lado da definição dos alunos que demandam educação especial, o art. 59 discorre sobre os direitos que esses estudantes têm, assegurados pelos sistemas de ensino. Entre tais direitos, está a formação dos docentes que trabalharão com estes alunos. O inciso III deste mesmo artigo apresenta o trecho a seguir: “professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns”.
A Resolução CNE/CEB nº 4/2009 estabelece, no art. 12, que, “Para atuação no AEE, o professor deve ter formação inicial que o habilite para o exercício da docência e formação específica para a Educação Especial”. Esclarece ainda, no art. 13, as atribuições para o educador do Atendimento Educacional Especializado. A legislação apresenta orientações a respeito da formação dos docentes, orienta nos objetivos e estabelece as atribuições desses profissionais.
Perante as dificuldades encontradas quanto à formação de educadores para esta área da educação especial, a Secretaria de Educação Especial do MEC deu início a criação de Núcleos de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S) em todos os estados do Brasil, a partir do ano de 2006.
A criação destes núcleos visa diminuir os obstáculos para a educação de alunos que apresentam indícios de altas habilidades/superdotação, incentivar a formação de profissionais e apoiar o desenvolvimento de programas que podem atender àqueles que necessitam deste aporte.
É no envolvimento da educação básica, da educação especial, da proposta de educação para todos, nas políticas públicas, na formação de professores, assim como nas práticas pedagógicas, que se inicia o debate a respeito dos desafios, das possibilidades e das ações para que o processo de inclusão educacional para todos seja implementado. Quanto maior for a informação sobre o tema no ambiente escolar, maior será o benefício para os debates sobre a educação para todos, o que beneficiará a todo o aluno que demanda aporte especial em sua trajetória escolar.
O trabalho com estes alunos tem como base a ação do docente, considerando-se este o mediador de todo o processo educacional. Portanto, para ser professor, é necessário estar em constante reformulação das teorias e práticas.
É importante, portanto, que o docente esteja em constante estudo, em intermitente reformulação dos modos de pensar e atuar em sala de aula. Para o atendimento dos alunos com necessidades educacionais especiais, é necessário um profissional que esteja preparado para os constantes desafios e para as diversas possibilidades no campo educacional.
Não é necessário, no entanto, que o educador de alunos superdotados seja uma pessoa excepcionalmente capaz, porém, é necessário que o professor apresente interesse por este trabalho. Deve expandir sua visão sobre a temática da dotação e talento humano, esclarecer sua posição e valores em relação à área, além de procurar adquirir o conhecimento necessário para um desempenho adequado de sua tarefa.
As orientações e recomendações para que os docentes obtenham formação continuada estabelecem um acervo importante tanto no aspecto legal quanto nas pesquisas científicas. No entanto, há o problema de escassez nas fontes para a busca de informação que possa orientar adequadamente o trabalho dos professores, com os estudantes que apresentam indícios de altas habilidades/superdotação.

A avaliação psicológica na área das altas habilidades deve ser realizada através de um conjunto de informações adquiridas pelo psicólogo, por meio de um conjunto de instrumentos usados com o aluno, com a escola, assim como com a família, com o objetivo de mapear as condições cognitivas, sociais, afetivas e metacognitivas do estudante, podendo assim, orientá-lo e conduzi-lo com ações para o pleno desenvolvimento do seu potencial.
Esta avaliação não deve ser isolada, nem mesmo linear, e não deve apresentar uma tendência reducionista do desenvolvimento do indivíduo, nem tampouco desconsiderar a influência de aspectos sociais e culturais no comportamento dos seres humanos.
Em 2006, o MEC apresentou uma lista denominada de Modelo de Sondagem Inicial, para a Identificação de Altas Habilidades/Superdotação, com o intuito de fornecer subsídios aos docentes na identificação de algumas das características dos alunos com AH/SD. Esta lista tem sido usada frequentemente nas Secretarias Municipais e Estaduais de Educação brasileiras. No entanto, é um modelo de sondagem inicial e, sendo assim, não pode ser classificada como uma ferramenta avaliativa final. É somente o primeiro passo para se encaminhar esse estudante para uma avaliação junto a profissionais capacitados, que lançam mão de instrumentos elaborados e validados, conforme a realidade no país. A utilização desta lista única e exclusivamente, pode proporcionar alterações consideráveis no número de estudantes com AH/SD, considerando que não é um instrumento específico e validado, não podendo assim apresentar garantia nos resultados.
Alguns instrumentos utilizados pelo psicólogo, conforme indica a literatura, são os testes de inteligência RAVEN8 e WISC-IV9, que são utilizados por serem validados e apropriados à realidade do país. No entanto, a aplicação desses instrumentos não é estanque, sendo que outros são associados a eles. Sendo assim, é necessário que o psicólogo lance mão de outras ferramentas, como: entrevistas, observações do rendimento e desempenho escolar e análise de produções, que avaliem a criatividade.
Um dos testes usados para avaliação do pensamento criativo é denominado teste Torrance de Pensamento Criativo 10, validado por Wechsler em 2004. Além deste, são utilizadas atividades que estimulem a criatividade e o autoconceito, como jogos e brincadeiras. É importante que o processo avaliativo aconteça em um ambiente lúdico, onde jogos, desenhos e produções espontâneas devem ser estimados e observados atentamente.
Desta maneira, o psicólogo, envolvido em todo processo avaliativo, pode adquirir critérios aceitáveis em relação aos instrumentos adotados, para não distorcer sua identidade teórica e, sobretudo, deve adotar um caminho que objetive a observação, a investigação, assim como adotar uma atitude de pesquisador quanto ao fenômeno investigado. Considerando sempre a experiência, bem como a análise dos dados e resultados da avaliação, com objetivo de formar meios para o desenvolvimento das potencialidades do estudante.
É muito importante que o psicólogo apresente uma postura dinâmica e flexível no processo de avaliação, sendo um instrumento mediador, em função de sua postura interdisciplinar, na intenção de compreender as características sociais e emocionais do estudante que apresenta AH/SD, procurando refletir sobre o planejamento de práticas pedagógicas e também sobre os serviços destinados a esses alunos, mantendo sempre uma interlocução com a equipe de profissionais da escola ou de outros serviços.
É fundamental, durante a avaliação realizada pelo psicólogo junto ao estudante com AH/SD, incluir sua família, com o intuito de saber mais sobre as demandas dos pais ou responsáveis referente a compreensão de suas crenças, valores e sentimentos sobre o fenômeno das AH/SD. É importante que o psicólogo assuma uma postura construtiva, orientadora, informativa e esclarecedora junto à família, mostrando assim os aspectos que valorizem as características que definem as AH/SD, o seu modo de funcionamento, os aspectos individuais, os sociais, assim como, os emocionais, com a intenção de desmistificar conceitos distorcidos.

É possível observar no cotidiano escolar posicionamentos não muito claros sobre conceitos de altas habilidades/superdotação. Entretanto, há pouca ou nenhuma referência teórica sobre AH/SD no espaço escolar. Assim, perante este contexto, o que se faz para o desenvolvimento destes estudantes ainda deixa muito a desejar.
Ao se pensar sobre quais características o aluno superdotado apresenta, colocam-se algumas questões: como saber detectar este aluno, qual ou quais instrumentos e métodos utilizar para identificá-lo e qual a proposta pedagógica para corresponder com as suas necessidades. As respostas para estas indagações deveriam ser supridas na formação dos educadores, seja na formação inicial ou na continuada.
Pensando na demanda dos alunos com AH/SD, assim como nos demais estudantes que necessitam de auxílios educacionais mais especializados, é possível perceber que as instituições ainda funcionam com o pensamento na dinâmica do aluno padrão, ou seja, daqueles que demandam recursos mais ou menos padronizados, o grupo mais homogêneo. No entanto, a escola é um espaço de desafios constantes.
As dificuldades encontradas nas instituições que trabalham com a perspectiva do aluno com necessidades educacionais especiais, em um contexto heterogêneo, onde os estudantes demandam ritmos diferenciados para a sua aprendizagem, são muitas. Para trabalhar nesse contexto heterogêneo se fazem necessárias posturas reflexivas e flexíveis dos docentes.
Cabe valorizar perspectivas de formação que promovam a preparação adequada destes professores, e que estes também assumam a responsabilidade de seu desenvolvimento profissional, atuando como protagonistas na efetivação de políticas educativas necessárias para garantir a qualidade do ensino nas escolas públicas da Educação Básica brasileira.
São necessários mais momentos de reflexão que instiguem os profissionais da educação a sair do modo passivo, para que possam quebrar paradigmas e atuarem nas ações que perpassam o trabalho pedagógico. Através do diálogo é que estes profissionais podem proporcionar a circulação de informações que possam otimizar o trabalho com todos os alunos.
As informações sobre altas habilidades/superdotação não podem ser apenas voltadas para conceitos e características, mas também devem ser voltadas para o processo de ensino e aprendizagem, através de planejamentos que atendam aos estudantes com indicações de AH/SD nas suas especificidades.
No cenário da educação brasileira, é possível perceber-se que, no movimento da educação inclusiva para todos, a maior parte das iniciativas são iniciadas a favor dos alunos com deficiências. Estas Iniciativas são amparadas por laudos clínicos, recursos, materiais e procedimentos de ensino para que estes sejam recebidos nos sistemas escolares de maneira que suas respostas educativas e suas necessidades sejam correspondidas. No entanto, os alunos com indicadores de AH/SD se encontram inseridos nas escolas, porém, sem o reconhecimento necessário de seus potenciais.
Tratando-se da DNEE em altas habilidades/superdotação, é provável que haja muitos alunos não reconhecidos, provavelmente, por estarem sendo vistos com olhares focados em incapacidades e não nas potencialidades dos indivíduos com necessidades educacionais especiais.
Os entraves burocrático/administrativos que se expressam em exigências de laudos que comprovem as altas habilidades/superdotação formam barreiras para que os sistemas escolares recebam o repasse de recursos pelo governo, já que a dupla matrícula é contemplada, regida em dispositivos legais referentes ao atendimento educacional especializado. Além do mais, em caso de DNEE, surgem dúvidas de como seria efetuado o atendimento ou mesmo o repasse de recursos.
Diante dos fatos expostos, é possível concluir que este tema demanda maiores discussões no espaço escolar e nos ambientes de formação docente, considerando que a escassez de circulação de informações reforça a manutenção de mitos a respeito dos alunos com AH/SD e práticas educacionais inadequadas.
Mesmo com os avanços da ciência, com os novos conhecimentos gerados a respeito do tema, com os grandes movimentos sociais, no país e no mundo, para a extinção de todas as barreiras que possibilitem a inclusão social, ainda é bastante frequente, os sujeitos que apresentam algum tipo de diferença serem, senão desconhecidos, temidos ou mesmo desprezado por motivos diversos que prevalecem há milênios.
A Deficiência Múltipla não pode ser compreendida simplesmente como um fator inerente ao sujeito reconhecido e tratado como deficiente. É uma situação que surge da interação entre os indivíduos que apresentam determinados atributos com o meio social, que considera como desvantagens as variações no comportamento e na capacidade, em consequência daqueles atributos.
Algumas enfermidades estão comprovadamente relacionadas com a deficiência múltipla, que trazem efeitos significativos para os indivíduos afetados. Considerando o impacto da deficiência múltipla, é inteiramente relevante analisar seus efeitos na funcionalidade do indivíduo, perante o ambiente físico e social, bem como analisar de que maneira as deficiências interferem na qualidade de vida das pessoas com deficiência múltipla.
O conhecimento a respeito da deficiência múltipla vale como base para evitar maiores interferências adversas na vida do indivíduo e, também, para se minimizar seus efeitos sobre este, bem como possibilitar a sua promoção social. O conhecimento também pode auxiliar na prevenção de deficiências decorrentes das já existentes, e apoiar a pessoa com deficiência para que esta atue o mais eficientemente possível perante às necessidades ambientais.
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